Sexta-feira, 28 de Agosto de 2009

Casco de Sapateira recheado

 
Vai sendo moda em alguns restaurantes, pelo menos mas minhas bandas de Sesimbra e Meco, não sei se é coisa que ande espalhada, incluir no menu, como entrada, Casco de Sapateira Recheado. E se é verdade que a Sapateira não é um marisco por aí além caro, não o é menos que o preço deste apetizer não coincide habitualmente com o que ditaria a lógica.
 
Vejamos, se um kg de Sapateira custar 25 euros e sabendo que para rechear o casco da mesma se usa toda a chicha aproveitável, se o dito casco de um bicho de meio kg custar menos de 10, não é preciso ser nenhum Guterres para perceber que algo não bate certo.
Claro que não se pode generalizar e eu até sei que ao mencionar a restauração de Sesimbra e do Meco estou a ser injusto porque nos restaurantes que eu conheço o recheio é mesmo de Sapateira.
 
Mais, se no menu constar "Casco de Sapateira Recheado", em nenhum lado estará escrito que o recheio é composto por ingredientes provenientes do animal... ou pelo menos desse.
 
Porque a verdade é que é facílimo fazer recheio de casco de Sapateira sem por as mãos ou os olhos sequer em tal bicho. Eis como.
 
Em vez de um animal precisamos de uma máquina, uma picadora daquelas que nunca percebi se se passou a chamar 1,2,3 por causa do anúncio ou se o anúncio era assim por causa do nome, coisa que é para o caso (ou em qualquer contexto) absolutamente irrelevante. A única coisa semelhante a um animal - até o é, mas não parece - é atum em lata. Pessoalmente confio na brancura das portas e no azeite do Bom Petisco. Escorro o azeite de 2 latas e como isto tem que ser feito por duas vezes, despejo uma no 1,2,3. Junto meio frasco daquelas azeitonas a que alguém se deu ao trabalho de tirar o caroço e colocar um mini-pickle de pimento vermelho (a outra metade fica para a outra lata), meia cebola média, meio ovo cozido (a outra metade... acho que já se percebeu), três colheres de sobremesa mal cheias de maionese Heinz - ou à cautela duas e depois se for necessário acrescenta-se mais porque o contrário não da - e toca de picar tudo, não por 1-2-3, é mesmo deixar ficar a mão até não sobrar pedacinho por estraçalhar.
 
Doseando a maionese consegue obter-se a consistência que mais agrade, idealmente não muito seco nem muito liquefeito.
Ocorre-me que isto possa eventualmente ser feito tudo de uma vez com a varinha mágica (tantos nomes enigmáticos que uma cozinha contém!) mas como ser da espécie "homem" que sou, se isto foi inventado no 1,2,3, no 1,2,3 continuará a ser feito, sai bem? Então tá bom, não inventa, não mexe mais, não complica, manter pelo básico.
 
Aviso que me sai diferente de cada vez que faço, mas garanto ser verdade já ter passado por recheio de casco de Sapateira num jantar para 18 pessoas (o facto de ter realmente os cascos ajuda bastante).
Infelizmente quiseram saber como é que eu preparava e desmascarei-me. Irrita-me aquela coisa do "é segredo" (a do "segredo que vai comigo para o túmulo" então acho profundamente parva, egoísta e um desperdício).
 
Na pior das hipóteses, se não se assemelhar ao sabor do clonado marisco, resultará num óptimo patê, modéstia à parte e dependendo do gosto de cada um, naturalmente.
 
publicado por joao moreira de sá às 08:09
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6 comentários:
De Just Thinking a 30 de Janeiro de 2008 às 18:14
Vizinho,

Não fossem as olivas e até experimentava. Mas as ditas sempre me deram ânsias... Nem pareço descendente de alentejanos. :P
De joao moreira de sá a 30 de Janeiro de 2008 às 19:02
Se fossem só as olivas. Minha cara, já devias saber que nestas coisas da culinária (e não só) a imaginação é tudo. ;)

Troque-as por pickles de pimento, cebolinho, cenoura... couve-(blagh!)-flor.
De Sosuzy a 4 de Abril de 2008 às 01:47
Eu subsituiria o atum por delícias do mar!
De Ana Martins a 31 de Agosto de 2009 às 00:20
Bom, na versão gourmet da coisa, já que não sou gajo e gosto mesmo de cozinhar, todas as versões do paté resultam bem desde que tenha a maionese (prefiro caseira ou a ser de compra a calvé) a componente ácida dos pickles (e/ou azeitonas), o toque da chalota em vez de cebola (tem a vantagem de não feder), o atum ou mesmo a dito bicho que nem fica assim tão caro. Se dá mais trabalho que abrir uma lata de atum? Sim, e não se pode pôr a sapateira ou caranguejos no 1,2,3, (sempre gostava de saber o porque do nome, João quando descobrires avisa), a maionese caseira também é mais elaborada, mas já utilizo a varinha mágica (outro mistério João, avisas, ok?) e descobri que se pode comprar feita. Verdade cheguei ao séc. XXI, mas lá no princípio escrevi "versão gourmet" certo?
Quanto a mim, falta um ingrediente que faz logo toda a diferença. Salsa picada. E picantezito...
Mas é como a cebola/chalota. Só para quem gosta. E eu gosto muito.
Vou espreitar mais vezes como os gajos cozinham
Beijinho João, Parabéns!
Ana
De Filipe a 9 de Outubro de 2010 às 17:08
O kg da sapateira viva ronda os 5/7€/kg nos hipers e 4/5€ nos viveiros . Não sei onde viu o kg da sapateira a 25€.
Mais informo que as marisqueiras utilizam sapateiras que perdem as patas e as que morrem nos viveiros( perfeitamente comestíveis) e estes vendem mais barato , cerca de 3,50€kg para fazer o dito casco com a carne da mesma.
É preciso não perceber mesmo nada de marisco nem do seu sabor para aldrabar o recheio de sapateira com algo como atum?
Por favor...!? Enfim , quando nao se sabe, tenta se saber não?
De Filipe a 9 de Outubro de 2010 às 17:09
O kg da sapateira viva ronda os 5/7€/kg nos hipers e 4/5€ nos viveiros . Não sei onde viu o kg da sapateira a 25€.
Mais informo que as marisqueiras utilizam sapateiras que perdem as patas e as que morrem nos viveiros( perfeitamente comestíveis) e estes vendem mais barato , cerca de 3,50€kg para fazer o dito casco com a carne da mesma.
É preciso não perceber mesmo nada de marisco nem do seu sabor para aldrabar o recheio de sapateira com algo como atum?
Por favor...!? Enfim , quando nao se sabe, tenta se saber não?

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